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As verdadeiras lições de liderança de Steve Jobs - Final

Revista Harvard Business Review Brasil - Walter Isaacson

01 mar

Só tolere gente de primeira 

Jobs era notoriamente impaciente, petulante e duro com aqueles a seu redor. Mas o modo como tratava os outros, mesmo não sendo louvável, nascia de sua paixão pela perfeição e pelo desejo de trabalhar apenas com os melhores. Era seu jeito de impedir o que chamava de “explosão de bozos”: quando os chefes são tão corteses que gente medíocre se sente bem em ficar na empresa. “Não creio que trato mal os outros”, disse, “mas, se algo é uma porcaria, digo isso na cara da pessoa. É minha função ser honesto”. Quando quis saber se ele achava que poderia ter conseguido os mesmos resultados sendo mais simpático, Jobs disse que talvez sim. “Mas esse não sou eu. Talvez haja uma maneira melhor — um clube de cavalheiros no qual todos usam gravatas e falam em algum dialeto brâmane, com palavras doces, cifradas — mas não conheço essa maneira, pois sou um californiano de classe média.”

Todo esse comportamento intempestivo e abusivo era realmente necessário? Provavelmente, não. Jobs podia ter motivado a equipe de outro modo. “O Steve podia ter dado sua contribuição sem tantas histórias dele aterrorizando os outros”, disse Wozniak,  cofundador da Apple. “Prefiro ser mais paciente e não ter tantos conflitos. Acho que uma empresa pode ser uma boa família.” Em seguida, Wozniak acrescentou algo que é inegavelmente certo: “Se o projeto do Macintosh tivesse sido tocado do meu jeito, a coisa provavelmente teria sido um caos”.

É importante saber que a rispidez e a rudeza de Jobs eram acompanhadas da capacidade de inspirar os outros. Jobs infundiu no pessoal da Apple a paixão permanente por criar produtos revolucionários e a crença de que todos ali podiam realizar o que parecia impossível. E temos de julgá-lo pelos resultados. Jobs tinha uma família muito unida — e o mesmo ocorria na Apple: os grandes cérebros da empresa tendiam a ficar ali mais tempo e a ser mais fiéis do que os de outras empresas, incluindo aquelas lideradas por chefes mais amáveis e gentis. Executivos que estudam Jobs e decidem imitar sua rispidez sem entender essa capacidade de inspirar lealdade cometem um erro perigoso.

“Ao longo dos anos, aprendi que, se tiver gente muito boa a seu redor, não é preciso estar pegando na mãozinha de cada um”, ouvi de Jobs. “Ao esperar que façam coisas espetaculares, é possível levá-las a fazer coisas espetaculares. Pergunte a qualquer membro daquela equipe do Mac. Todos dirão que valeu o sofrimento.” E a maioria diz. “Em reuniões, ele gritava: ‘Idiota, você nunca faz nada direito!’”, lembra Deborah Coleman. “Mas me considero a pessoa mais felizarda do mundo por ter trabalhado com ele.”

Trave contato cara a cara

Embora fosse um cidadão do mundo digital, ou talvez porque conhecesse muito bem seu potencial para isolar o indivíduo, Jobs era forte defensor do contato cara a cara. “Na era conectada em que vivemos, há uma propensão a achar que é possível desenvolver ideias por e-mail e iChat”, ouvi dele. “É um absurdo. A criatividade vem de encontros fortuitos, de conversas inesperadas. Você cruza com alguém, pergunta o que anda fazendo, diz ‘uau!’, e, em pouco tempo, está tendo toda sorte de ideia.”

Na Pixar, Jobs quis que a sede fosse projetada para promover encontros e colaborações fortuitos. “Se um edifício não incentiva isso, perde-se muito da inovação e da magia que nascem do acaso”, disse. “Logo, projetamos o edifício para que as pessoas saíssem de sua sala e cruzassem, no átrio central, com gente que não estavam acostumadas a ver.” As portas da entrada, a escadaria central e os principais corredores conduziam, todos, a esse átrio; ali ficavam o café e caixas de correio; as salas de reunião tinham janelas que davam para esse saguão; e o cinema de 600 lugares e duas salas menores de exibição também desembocavam ali. “A teoria do Steve funcionou desde o primeiro dia”, recorda Lasseter. “Volta e meia cruzava com gente que não via há meses. Nunca vi um edifício tão bom para promover a colaboração e a criatividade quanto este.”

Jobs detestava apresentações formais, mas adorava encontros cara a cara, descontraídos. Reunia a equipe executiva toda semana para discutir ideias sem uma pauta formal. Nas quartas pela tarde, fazia o mesmo com a equipe de marketing e publicidade. Slides eram proibidos. “Detesto o modo como as pessoas usam apresentações com slides em vez de pensar”, disse Jobs. “Se havia um problema, as pessoas iam e criavam uma apresentação. Queria que se envolvessem, que trocassem ideias ali na hora, e não que mostrassem um punhado de slides. Quem sabe do que está falando não precisa de PowerPoint.”

Domine tanto o todo quanto os detalhes

Jobs encarava com paixão tanto questões grandes como minúsculas. Certos executivos são ótimos na coisa da visão; outros são gestores que sabem que Deus está nos detalhes. Jobs era as duas coisas. 
Jeff Bewkes, presidente da Time Warner, diz que um dos traços mais marcantes de Jobs era a capacidade e o desejo de vislumbrar uma estratégia geral e, ao mesmo tempo, atentar para os mínimos detalhes de um projeto. No ano 2000, por exemplo, Jobs soltou a grande visão de que o computador devia virar um “hub digital” para a gestão de tudo o que um usuário tivesse de música, vídeo, foto e conteúdo — o que lançou a Apple no negócio de aparelhos portáteis com o iPod e, em seguida, o iPad. Em 2010, Jobs lançou a estratégia seguinte: esse centro migraria para a nuvem — e a Apple começou a montar um imenso parque de servidores para que todo o conteúdo do usuário pudesse ser jogado na nuvem e, em seguida, perfeitamente sincronizado com outros aparelhos do indivíduo. Enquanto lançava essas grandes visões, seguia preocupado com a forma e a cor de parafusos no interior do iMac.

Combine humanas com exatas

“Quando jovem, sempre me vi como uma pessoa de humanas, embora gostasse de eletrônica”, Jobs me contou no dia em que decidiu colaborar com a biografia. “Foi então que li algo que um de meus heróis, Edwin Land, da Polaroid, dissera sobre a importância de gente capaz de se colocar no cruzamento de ciências humanas com exatas. Decidi que era aquilo que queria fazer.” Naquele momento, foi como se Jobs estivesse descrevendo o tema de sua vida. E, quanto mais pesquisava sobre ele, mais percebia que essa era, de fato, a essência de sua história.

Jobs ligava humanas com exatas, criatividade com tecnologia, arte com engenharia. Havia tecnólogos superiores (Wozniak, Gates) e, sem dúvida, designers e artistas melhores. Mas ninguém em nossos dias era mais capaz de integrar poesia e processadores de um jeito que deflagrasse a inovação. E Jobs o fez com um faro intuitivo para a estratégia de negócios. Em quase todo lançamento de um produto na última década, Jobs encerrou com um slide que mostrava uma placa no cruzamento de duas ruas imaginárias: Artes Liberais e Tecnologia.

A criatividade que pode haver quando um tino tanto para humanas como exatas é observado numa personalidade forte foi o que mais me interessou em minhas biografias de Franklin e Einstein, e creio que será uma das chaves para a criação de economias inovadoras no século 21. É a essência da imaginação aplicada, e é por isso que tanto ciências humanas como exatas são fundamentais para qualquer sociedade interessada em ter uma vantagem criativa no futuro.

Mesmo à beira da morte, Jobs mostrava interesse em promover uma reviravolta em outros setores. Tinha uma visão para transformar livros didáticos em empreitadas artísticas que qualquer pessoa com um Mac pudesse pensar e criar — algo que a Apple anunciou em janeiro de 2012. Também sonhava em produzir ferramentas mágicas para a fotografia digital e um jeito de transformar a televisão em algo simples e pessoal. Isso, sem dúvida, também virá. E ainda que não vá estar vivo para ver o sonho concretizado, suas regras para o sucesso ajudaram a erguer uma empresa que não só irá criar esses e outros produtos revolucionários, mas que permanecerá no cruzamento da criatividade e da tecnologia enquanto o DNA de Jobs seguir em seu âmago.

 “Stay Hungry, Stay Foolish”

Steve Jobs foi um produto dos dois grandes movimentos sociais surgidos na região californiana de San Francisco no final da década de 1960. O primeiro foi a contracultura hippie e antiguerra, marcada pelo consumo de substâncias psicodélicas, pelo rock e pelo antiautoritarismo. A segunda foi a cultura hightech e hacker do Vale do Silício, povoada de engenheiros, geeks, tecnonerds, phreakers, cyberpunks, amadores e empreendedores de garagem. Correndo em paralelo havia vários caminhos de crescimento pessoal: zen-budismo e hinduísmo, meditação e 
ioga, terapia do grito primal e privação sensorial, Esalen e est.

Publicações como a Whole Earth Catalog, de Stewart Brand, faziam um apanhado dessas culturas. A capa da primeira edição do catálogo trazia a famosa fotografia da Terra vista do espaço. A chamada dizia “access to tools” (literalmente, acesso a ferramentas). A filosofia básica era que a tecnologia podia nos ajudar. Jobs — que virou uma mistura de hippie, rebelde, sujeito em busca de crescimento espiritual, “phone phreaker” e fanático da eletrônica — era fã da revista. Foi particularmente tocado pela última edição, que saiu em 1971, quando ainda estava no colegial. O exemplar foi com ele para a faculdade e, mais tarde, para a fazenda comunitária de cultivo de maçã onde foi morar ao abandonar a faculdade. Mais tarde, Jobs lembraria: “Na contracapa do último número havia a foto de uma estradinha numa manhã de sol, um caminho desses em que um de nós, se fosse aventureiro, poderia estar pedindo carona. Abaixo, as palavras ‘Stay Hungry. Stay Foolish’”. Jobs manteve a fome de viver e a vontade de aprender por toda a carreira. Como? Garantindo que o aspecto empresarial e engenheiro de sua personalidade fosse sempre complementado pelo lado hippie e não conformista de seus tempos de rebelde artístico, consumidor de LSD, interessado em crescer espiritualmente. Em todo aspecto de sua vida — as mulheres com quem se relacionou, o modo como lidou com o câncer, a forma como tocou a empresa — seu comportamento refletiu as contradições, a confluência e a síntese final de todas essas distintas vertentes.

Mesmo com a Apple virando uma grande empresa, Jobs afirmava seu lado de rebeldia e contracultura em campanhas publicitárias, como que para proclamar que, no fundo, ainda era um hacker e um hippie. O famoso comercial “1984” mostrava uma rebelde com a “polícia do pensamento” em seu encalço lançando uma marreta contra a imagem de um Grande Irmão orwelliano. Ao voltar à Apple, Jobs ajudou a escrever o texto da campanha “Think Different”: “Viva os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os do contra. Os pinos redondos em buracos quadrados (…)”. Se havia alguma dúvida de que, conscientemente ou não, Jobs estava descrevendo a si mesmo, essa dúvida foi eliminada com as frases finais: “Se para alguns são loucos, para nós são gênios. Porque quem é louco o suficiente para achar que pode mudar o mundo é, no fundo, quem pode mudá-lo”.

Walter Isaacson é presidente do Aspen Institute, autor de Steve Jobs e de biografias de Henry Kissinger, Benjamin Franklin e Albert Einstein

FONTE: Revista Havard Business Review - Abril 2012 

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